Sebos e sebistas em Aracaju

quinta-feira, 21 de julho de 2011

De Gutemberg para cá, quantos livros já foram publicados? Até agosto de 2010, aproximadamente 130.000.000, segundo engenheiros do projeto Google Books. De toda essa produção, livros foram queimados, jogados fora, doados ou revendidos. E é esse mercado de livros de segunda mão, tão antigo quanto a venda dos livros novos, que tem ajudado o brasileiro a aumentar sua média de livros lidos por ano. Segundo o MinC, nos últimos anos a média subiu de 1,8 para 4,7 livros lidos por ano.

A denominação 'Sebo', para identificar venda de livros usados remonta à época anterior à eletricidade, donde as velas, então feitas com sebo animal, iluminavam leituras noturnas. Com o manuseio das velas os livros consequentemente ficavam 'ensebados'. Comercializados em livrarias ou em feiras, a venda de livros de usados remonta à Europa do século XVI, onde historiadores e estudiosos fomentaram a venda de papiros, livros manuscritos e documentos diversos. Tais comerciantes receberam nome de alfarrabistas, como ainda são chamados em alguns países do Velho Continente.

Existem sebos em Aracaju? A quantas anda esse mercado, quem são seus donos e quais os seus clientes?


O que faria sem os livro? "Sou o mesmo que uma traça: sem os livros eu morreria."
Brandão, que trabalha há 42 anos com livros novos, e há pouco mais de dois meses
com livros usados. Atende nas dependências da UFS, vizinho ao CECH.
A tradição de venda de livros usados é antiga por essas bandas. O mais novo sebo local, aberto há dois meses, pertence a um não tão novato assim no mercado literário, o livreiro Brandão, que atua há mais de 40 anos na venda de livros em Sergipe. O sebo do Brandão fica localizado na Universidade Federal de Sergipe, na Ilha do CCBS, ali, vizinho ao CECH. “A confusão no nome deve-se à burocracia. O projeto original previa essa 'Ilha' (construção com quatro boxes cujos processos licitatórios para ocupação se deram no início de 2011) no espaço do CCBS. Quando foram ver, não tinha espaço e mudaram o local. Só que mantiveram o nome.” Explico Brandão, que desde 20 de fevereiro de 1969 atua na venda de livros. Na UFS desde a inauguração do Campus até 2007, quando passou a vender no Campus Itabaiana, depois numa galeria situada na esquina da Rua Itaporanga com Lagarto, Centro de Aracaju, e por último numa casa no conjunto Rosa Elze, até retornar à UFS em 2010. Brandão continua a venda de livros novos em outro box na Ilha da Didática 1 e no próximo período letivo da UFS abrirá outro na Ilha do CEAV.

Coquetel da Cultura. Loja localizada na Av. Acrísio Cruz.


O maior sebo de Aracaju chama-se Coquetel da Cultura e atende em dois endereços: na Rua Campo do Brito, 1199, onde os clientes são atendidos por Roberto Oliveira, e na Avenida Acrísio Cruz, 144, com atendimento feito pelo Fúria. Ambos leitores vorazes e profundos conhecedores da literatura mundial. Luiz Henrique, dono do estabelecimento, trabalha com livros desde os 14 anos. Primeiro como vendedor na livraria Civilização Brasileira, depois em sociedade com seu pai, em quatro pontos de Salvador. Em 1989 abre a livraria Jubiabá, que viria a abrir sua filial em Aracaju, no Shopping Riomar. Depois de muito investimento, o Plano Collor freou a empreitada. Em 2002 inicia a atividade de sebista com o Coquetel da Cultura. Hoje seu acervo é estimado em 100 mil exemplares nas duas lojas, com preços que variam entre 20 a 50% do preço de livros novos. Mas sempre se negocia na compra de muitas unidades, pois trabalha como ponta de estoque, o que barateia ainda mais o preço do livro, além de também trabalhar com a venda de lp´s, cujo acervo deve facilmente passar das 4000 unidades.

No Mercado Albano Franco se encontra o mais antigo livreiro de usados em atividade: João Evangelista dos Santos, o popular Fumaça. Iniciou sua atividades no ano de 1975 na feira de sua cidade natal, Aquidabã. Depois começou a frequentar as feiras de Graccho Cardoso e Itabi, até que em 1978 começou o negócio na feira do Centro de Aracaju, no início da Rua Santa Roza, até que com a reforma dos mercados Albano Franco, Thalez Ferraz e Antônio Franco, Fumaça se muda para onde se encontra até hoje, os boxes 27 e 28, onde sua clientela compra revistas, livros de diversos gêneros, e alguns discos de vinil também. O preço “A gente sempre negocia”, informa o sempre alegre Fumaça.

Ali bem próximo, no mercado Thales Ferraz, próximo à Passarela das Flores, o cordelista imortal João Firmino, ocupante da cadeira nº 36 da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, vende seus cordéis, que escreve há mais de 50 anos, e iniciou há alguns anos a compra, venda e troca de livros usados.


Há 50 anos escrevendo cordel, João Firmino hoje faz parte da Academia Brasileira
de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 36. Além dos cordéis, "vende, troca
e compra romances". 
Poucos metros adiante, na saída do mercado pela Rua Santa Roza, outro local dedicado à venda de livros usados, a Rito's Literatura Sergipana vendia exclusivamente livros e cd´s de autores sergipanos. Após seu público começar a procurar livros de outros autores, José Rito resolveu trazer de casa livros seus e desde então, já contam alguns anos, vende livros usados.

Localizado no Calçadão da Rua João Pessoa, César Garção vendia produtos diversos em sua banca, localizada à entrada do Banco Itaú. De uns anos pra cá começou também a vender livros, lp´s, cd´s e dvd´s, que hoje perfazem quase a totalidade de seus produtos disponíveis para venda.


Livros, cd´s, dvd´s e raridades em vinil. César Garção atende no calçadão da
Rua João Pessoa em horário comercial.

José Rito começou apenas com literatura sergipana. Hoje vende também livros usados,
artesanato e cd´s de autores sergipanos, em atividades há 8 anos.

Ali próximo, na praça Teóphilo Dantas, também conhecida como praça da Catedral, existe uma banca defronte à Câmara de Vereadores, que alterna entre aberta e fechada, e, quando em funcionamento, apresenta boas opções de livros e preços.

Michael vende livros usados nas ruas de
Aracaju há pelo menos 5 anos. 
Na mesma praça, ao lado da Catedral Metropolitana, regularmente encontramos o sebista de rua Michael, único em atividade na cidade. Sempre leva bons livros para venda e o preço, como na maioria dos locais, há de se negociar. Michael também vende em outros locais da cidade, como a Rua da Cultura, evento realizado na região dos mercados centrais de Aracaju, sempre às segundas-feiras, em shows de rock, além de levar seu acervo para vender em outras cidades, como Laranjeiras e São Cristóvão.

Outro livreiro que iniciou suas atividades também na praça Teóphilo Dantas é o Manuel Bomfim, repórter fotográfico aposentado, que depois de trabalhar em praticamente todos os jornais impressos de Aracaju entre 1968 e 2005, começou suas atividades de sebista há aproximadamente 5 anos. Inicialmente ocupou o espaço do antigo Cacique Chá durante alguns meses, quando mudou-se para ali pertinho: Rua Santa Luzia, nº 59. Pouco tempo depois abriu outro sebo, na Rua Estância, 509. Hoje o Dinossauro Universo Cultural pode ser considerado o segundo maior sebo de Aracaju. Só falta-lhe espaço para melhor arrumar os livros.

O repórter fotográfico aposentado Manuel Bomfim
administra o sebo Dinossauro Universo Cultural. Vende
livros e lp´s usados há pelo menos 5 anos


O ambiente tradicionalmente empoeirado e sujo confirma a fama dos sebos. Uns mais e outros menos. Desses há que se destacar a Letraria, sob organização de Ricardo Itaboraí, cujo ambiente é o que não espanta alérgicos à poeira. O local é climatizado, o que diferencia-o dos demais. Fica localizado nas dependências da Serpaf da Av. Heráclito Rollemberg, nº 1800, onde vende “livros novos e usados de literatura brasileira, literatura infanto-juvenil, literatura estrangeira, arte, turismo, gastronomia, esotérico, religiosos, auto-ajuda, obras de referência, biografias, memórias, raridades, além de revistas, gibis, lp´s, cd´s e dvd´s".

Todos esses livreiros tem uma função de grande importância para a população, na exata medida em que fornecem livros a um preço muitas vezes menor que o dos novos: facilitar o acesso à informação. Não só pelo preço menor, mas também por ofertarem livros raros, primeiras edições, livros autografados ou esgotados nas editoras. Eles exercem uma função social muito importante para a formação dos saberes dos indivíduos, que além do preço têm a comodidade de poder trocar o livro depois de lido, aumentando a circulação da informação. É um mercado em franca expansão a dos sebos. 

Um identificador dessa tendência é o Estante Virtual, site que reúne hoje 1.902 sebos de todo 330 cidades do Brasil, números que só aumentam desde sua criação, em 2005. Antes disso, o no mercado virtual encontrava-se 6 sebos com catálogo on-line, uns 100 sebos com sites rudimentares. Desses, menos de 5% com estoque informatizado. Em números de 2010, mais de 1.800 sebos e livreiros virtuais, sendo 7 milhões de livros online e mais de 25 milhões no acervo total dos sebos. São feitas 14 buscas por segundo durante o horário comercial e o incrível número de 25 mil livros cadastrados por dia!

Números do maior sebo virtual brasileiro, o Estante Virtual
http://www.estantevirtual.com.br/

Dos sebistas aracajuanos, apenas o Coquetel da Cultura utiliza as redes sociais para impulsionar as suas vendas. Mas ao que esses números acima apontam, acreditamos ser apenas uma questão de tempo para que esse nicho seja ocupado pelos demais livreiros de usados.

4 comentários:

Maartje disse...

Que matéria boa, André, nossa cultura meio capenga de publicações clássicas fica enriquecida com esses dados. O legal também é o fornecimento dos endereços e o histórico de cada sebo. Viva!

Leonardo de Melo Fonseca disse...

Boa!
Tinha um outro sebo que funcionava (o sebo athena) no centro mais acabou fechando esse mês...
=\
Alguns desses sebos eu não conhecia, sempre procuro alguma coisa rara...

André Teixeira disse...

Maartje! Essa matéria carece sim de uma atualização. Já a tive com o professor. Me comprometi em alterá-la depois de avaliada.

Valeu Leonardo! Como disse à Mike, as atualizações passam pelo resgate de sebos clássicos como o Novo Moriá, o Sebox, e o Athena, cuja dona atendia em outro que fechou na praça da Catedral, defronte à câmara dos vereados. Este vai reabrir em breve. Abs, A

Alebazi disse...

Matéria apaixonante...Não conhecia alguns desses sebos...Fiquei imensamente feliz em saber da existências de outros.
Eu tenho verdadeira paixão por livros usados,principalmente aqueles cheios de anotações e dedicatórias,rs...Fico a imaginar como é o\a antigo dono(a), o que fazia...
Ler livros usados é algo que vai além.
E outro detalhe, a compra de livros em sebos ajuda na preservação do meio ambiente, já que todos sabem que a indústria de celulose, com exceção de algumas fábricas que utilizam madeira reflorestada, derruba milhares de hectares de florestas nativa por ano.

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